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TRINCAS E FRATURAS EM METALOCERÂMICA: O QUE ISSO TEM A VER COM O C.E.T?
O aparecimento de trincas e fraturas em prótese metalocerâmica,sejam elas imediatas(durante os aquecimentos/resfriamentos) ou tardias(após a instalação da prótese na cavidade bucal) depende basicamente de dois fatores:
1 – CET da liga metálica muito discrepante do CET da porcelana
2 – Design incorreto da infra-estrutura metálica
1 – CET DA LIGA METÁLICA DIFERENTE DO CET DA PORCELANA
No primeiro caso – Coeficiente de Expansão Térmica(CET) da liga metálica discrepante do CET da porcelana, a maioria dos autores é unânime em apontar este como sendo o principal fator causador de trincas.
Nos últimos anos os fabricantes de porcelanas fundidas sobre estruturas metálicas aprimoraram muito suas propriedades, especialmente naquilo que se refere à resistência ao cisalhamento e à tração. Esse melhoramento veio diminuir sensivelmente a quantidade de trincas e fraturas. Para que isso ocorra,no entanto, é preciso que o Coeficiente de Expansão Térmica da liga metálica e o da porcelana sejam semelhantes. Ou seja: o CET da liga deve ser bem próximo do CET da cerâmica.
Vamos tentar explicar, em rápidas palavras, como isso funciona na prática.
Como se sabe, quando aquecido, um corpo metálico sofre grande dilatação(expansão), consequente desse aquecimento. Durante as sucessivas queimas de uma massa cerâmica sobre uma estrutura metálica, a porcelana deverá,também, apresentar o mesmo grau de expansão. E, de forma inversa, durante o resfriamento, ambos os materiais devem apresentar contração semelhante e na mesma velocidade.
Dessa forma, se os Coeficientes de Expansão Térmica da liga metálica e da porcelana forem muito diferentes entre si, haverá o acúmulo e liberação de tensões pela estrutura metálica para a massa cerâmica,durante o seu resfriamento, provocando o surgimento de trincas imediatas ou tardias neste material,conforme mencionado anteriormente.
As diferenças entre o CET da liga metálica e o da porcelana,independentemente da marca comercial são responsáveis por cerca de 70% das trincas e fraturas que acontecem nesses tipos de próteses. Daí ser extremamente importante, ao optar por uma marca comercial qualquer de porcelana, conhecer os valores do seu CET(que é divulgado pelo fabricante),bem como os da liga metálica da sua escolha(que também deve ser divulgado pelo fabricante. Se ele não faz isso,duvide da qualidade da liga ou da porcelana).
2) – DESIGN DA INFRA-ESTRUTURA METÁLICA
Outro fator também causador de trincas e bolhas ou porosidades internas(mais bolhas e porosidades internas que trincas), diz respeito ao desenho ou design da infra-estrutura metálica. Primeiro, em função do espaço disponível para a massa cerâmica.
Com base em centenas de pesquisas científicas, chegou-se à conclusão de que espessuras mínima e máxima de massa cerâmica sobre uma estrutura metálica devem ser,respectivamente,de 1,0mm(mínima) e 2,0 a 2,5mm(máxima). McLean,por exemplo, provou que quando a camada de porcelana não tem espessura uniforme em torno de toda a estrutura metálica, dificilmente se obtém a cor desejada. Além disso,quando a camada de massa cerâmica é superior a 2,0mm/2,5mm, provavelmente ocorrerão porosidades internas, tornando a massa enormemente enfraquecida e,portanto,sujeita a fraturas.
Além da espessura,que deve ser uniforme e se situar entre 1,0 e 2,5mm, a estrutura metálica não pode ter nenhum ângulo vivo. Ou seja: todos os ângulos e linhas do coping devem ser arredondados. A explicação para isso é bem simples: nas “quinas” formadas pelos ângulos vivos(por exemplo: bordas incisais,encontro das faces V e M ou L,etc) haverá o acúmulo de tensões que,desprendidas, provocam trincas e fraturas na porcelana. Esse tipo de evento costuma acontecer com maior freqüência após a instalação das próteses na boca do paciente, quando as mesmas estão sujeitas a esforços mastigatórios que, incidindo sobre a sua superfície, desencadeiam a liberação dessas tensões acumuladas nos ângulos vivos do coping, levando a fraturas na porcelana.
Dagoberto Fernandes é professor de Prótese Fixa no CTO-CENTRO DE TREINAMENTO EM ODONTOLOGIA, em Belo Horizonte, MG.
SOLDAGENS: TUDO O QUE VOCÊ PRECISA SABER E NINGUÉM NUNCA TEVE TEMPO PRA LHE ENSINAR
As próteses parciais fixas(pontes fixas) podem ser construídas em um único bloco(chamadas popularmente de “monoblocos”) ou com seus elementos constituintes separados em duas ou mais unidades,que serão posteriormente unidas por soldagens.
É possível confeccionar uma ponte fixa de três elementos em monobloco,capaz de se adaptar perfeitamente aos dentes pilares.Para a obtenção de melhores resultados,entretanto,é importante que o padrão de cera seja incluido em um anel de maior diâmetro possível(minimo de 60,0mm), a fim de que seja possível obter uma expansão térmica mais uniforme do revestimento. Para diminuir distorções do padrão de cera deve-se,neste caso, evitar a técnica de expansão higroscópica.
A fundição de uma ponte fixa em monobloco apresenta, no entanto, algumas desvantagens. A principal delas está relacionada com a dificuldade de se testar a exatidão da adaptação dos retentores. É muito comum,na tentativa de se conseguir uma adaptação, o técnico ou o dentista executarem alívios nas superfícies internas dos retentores, comprometendo a retentividade da prótese. Se isso ocorrer, ainda que a prótese tenha os seus elementos separados,fixados e novamente unidos por soldagem, o trabalho estará comprometido.
É por isso que se recomenda, mesmo nas pontes de três elementos, que a inclusão seja feita em duas unidades, para posterior união e soldagem. Na hipótese dela ter sido fundida em um único bloco e não puder ser ajustado pelas vias normais, sem envolver desgastes nas áreas internas dos retentores, é preferível seccionar a prótese com um disco de carborundum fino(0,23mm( em um dos conectores, seguida de posterior ajuste individual sobre os dentes pilares, união e soldagem.
TÉCNICAS DE SOLDAGEM DE PONTES FIXAS METALOPLÁSTICAS
Segundo Shillingburg, à medida que o comprimento de uma ponte fixa fundida em monobloco aumenta, aumenta também a sua imprecisão. Schifleger e cols. atestam a existência, nessas pontes, de fortes discrepâncias localizadas mesiocervcicalmente no retentor mais anterior e distolingualmente no retentor mais posterior, dificultando enormemente a sua adaptação.
As próteses parciais fixas de quatro ou mais unidades,unidas por soldagens, são muito mais precisas ue aquelas da mesma extensão,fundidas em monobloco.
Praticamente todos os pesquisadores concordam em um ponto: qualquer ponte fixa que tenha mais de três elementos deve ser,obrigatoriamente, soldada.
ONDE SECCIONAR?
Para que uma soldagem seja bem feita é imperativo que alguns cuidados sejam tomados. A primeira questão levantada é onde seccionar a ponte?
De uma maneira geral, a separação dos elementos de uma pnte fixa metaloplástica deve ser feita sempre nos conectores que unem o pôntico ao retentor de maior tamanho. Esta é uma regra básica, que pode,entretanto,sofrer variações, dependendo do caso.
COMO DEVE SER FEITA A UNIÃO?
Outra condição essencial a uma boa soldagem é a sólida união dos elementos a serem ligados entre si, durante a prova da prótese na boca do paciente. Esta união pode se processar de várias formas diferentes:
a - através de uma guia de transferência, feita em gesso;
b - união direta, com resina acrílica;
c - união com cera pegajosa;
d - união com pasta de óxido de zinco e eugenol,entre outros materiais.
Qualquer que seja a forma de união selecionada, o importante é que ela deve manter as relações exatas das partes da prótese provadas diretamente na boca do paciente, até sua inclusão em revestimento.
Antes de encaminhar uma ponte fixa que será unida por soldagem, é importante que alguns procedimentos laboratoriais sejam executados, a fim de garantir a efetividade posterior da soldagem. Para isso o técnico deve assim proceder, após a desinclusão da prótese:
a - seccionar os condutos de alimentação;
b - remover os excessos de canais de alimentação e adaptar os retentores nos seus respectivos troquéis;
c - usando pontas diamantadas e de óxido de alumínio, usinar toda a prótese, procurando manter entre o pôntico e o retentor que serão unidos entre si um espaço em torno de 0,2mm(espessura aproximada de um cartão de visitas);
OBS: É muito importante que as superfícies a serem soldadas mantenham entre si um perfeito paralelismo.
d - jatear com óxido de alumínio ou areia todas as superfícies externas da ponte fixa e encaminhá-la ao dentista para prova direta e união na boca do paciente.
UNIÃO PARA SOLDAGENS
Ao receber os elementos da ponte fixa para prova direta na cavidade bucal, o dentista deve fazer a união desses componentes de forma que, ao remeter a prótese novamente para o laboratório, os seus elementos estejam na exata posição que em que ela foi ajustada na boca.
Embora existam outros, o método de união dos componentes de uma ponte fixa a ser soldada mais usado consiste nas seguintes etapas:
a - provar os elementos separadamente, buscando o melhor ajuste oclusal e cervical possível dos retentores;
b - vedar as aberturas da área de soldagem com cera pegajosa(não é necessário fazer o preenchimento da região onde a solda escoará);
c - completar e reforçar a união feita inicialmente com cera, usando resina acrílica autopolimerizável para escultura dental(Duralay,Acrilay,Resinlay ou similar).
d - aguardar a presa da resina e remover e reintroduzir sobre os dentes pilares a ponte já unida, a fim de certificar se não existem quaisquer impedimentos à sua remoção e inserção ou mesmo movimentos de báscula. Depois de unida a ponte deve entrar e sair passivamente dos dentes que a suportam. e - aplicar uma camada de cera na porção cervical da área de união(entre o pôntico e o retentor que serão soldados entre si), de forma a criar,futuramente,quando da eliminação desta camada de cera, uma área livre para passagem da chama usada na soldagem.
OBSERVAÇÃO:
A proteção da área de união com cera, antes do uso da resina acrílica, tem por finalidade evitar que a resina escoe para dentro da área de soldagem.Isso é importante pois,durante o processo de desidratação do revestimento e eliminação dos materiais usados na união das partes a serem soldadas, apenas a cera se volatizará completamente, deixando resíduos insignificantes, que não irão comprometer a soldagem. Como a temperatura máxima para este procedimento é de 500°C, a resina acrílica,por sua vez, não será completamente eliminada e, se resíduos dela permanecerem dentro da área de soldagem, haverá contaminação da solda. Se,por outro lado, a cera usada na proteção escoar para a área de soldagem, não haverá qualquer comprometimento, já que a esta temperatura(500°C) ela é totalmente evaporada.
INCLUSÃO DA PONTE
Ao receber a ponte fixa unida pelo dentista, o técnico deve fazer sua inclusão imediata em revestimento. Para isso deve proceder como descrito a seguir:
a - usando lâminas de cera 7, construir, sobre uma placa de vidro, uma caixa retangular, com as seguintes medidas:
.comprimento: a medida da ponte fixa, mais 0,5 a 1,0cm a mais em cada extremidade. Ex: se a ponte tem 3,0cm, o comprimento da caixa será de, no máximo, 5,0cm);
.largura: de 0,5 a 1,0 cm a mais,em cada lado(vestibular e lingual), da largura da ponte fixa;
.altura: 2,5cm;
b - usando revestimento próprio para soldagens ou revestimento fosfatado manipulado apenas com água, preencher o interior dos retentores da ponte fixa com a ajuda de uma espátula 7 ou de um pincel,sob vibração contínua, para evitar a formação de bolhas;
c - a seguir, preencher todo o molde feito com a cera 7;
d - dispor a ponte com os retentores já preenchidos com revestimento sobre a massa de revestimento contida na caixa feita com cera rosa número 7, de forma que apenas os terços cervicais dos retentores e do pôntico fiquem imersos no revestimento. Ao fazer isso, tome cuidado para que a peça não “afunde” no revestimento contido no interior da caixa feita com cera 7. Se necessário, mantenha a ponte na posição descrita anteriormente, até que o revestimento inicie o seu endurecimento;
OBS: as pontes posteriores devem ser incluidas na massa de revestimento na posição vertical. Já as pontes anteriores devem ser incluídas com uma leve inclinação para vestibular, expondo a face lingual, onde será depositada a liga de solda.
ELIMINAÇÃO DA CERA
Após a união e inclusão dos elementos da ponte fixa que serão soldados, o próximo passo é eliminar a cera e a resina acrílica usadas na ligação dos dois componentes entre si. Para isso, após a presa, o bloco de revestimento deve ser conduzido ao forno à temperratura ambiente, e a temperatura elevada até 500°C, assim permanecendo durante 30 minutos.
Este aquecimento tem por finalidade promover a volatização da cera e da resina acrílica usadas na união. Um aquecimento feito a temperatura e tempo superiores aos descritos pode provocar expansão térmica do revestimento, promovendo um ligeiro afastamento das partes da ponte que serão unidas entre si. Deve-se,portanto,evitar que isso ocorra.
SOLDAGEM
Para a soldagem da ponte fixa, após a eliminação da cera e da resina acrílica,procede-se como descrito a seguir:
1 - Aguarde o esfriamento total do bloco de revestimento até a temperatura ambiente;
2 - Escave uma canaleta de forma triangular na zona de soldagem:
3 - usando um micro-jato, jateie as superfícies a serem soldadas, de forma a remover os vestígios de óxidos metálicos desprendidos durante o processo de eliminação da cera e da resina acrílica;
4 - empregando como anti-fundente o grafite de uma lapiseira ou lápis, demarque no pôntico e no retentor que serão soldados entre si as áreas para onde a solda não deverá escoar;
5 - com a ajuda de um instrumento Hollemback ou de um pincel fino, aplique o fundente sobre as superfícies que serão soldadas;
6 - a liga de solda pode se apresentar na forma de varetas ou lâminas. No nosso curso iremos usar liga de solda na forma de delgadas lâminas , fabricadas com uma espessura ligeiramente inferior ao espaço da área de soldagem. Com o bloco de revestimento devidamente posicionado sobre uma superfície refratária, introduza uma ou duas dessas lâminas na área de soldagem, com a ajuda de uma pinça clínica;
7 - para a soldagem propriamente dita deve-se proceder da seguinte forma:
a - regule o maçarico a gás e ar comprimido até que uma chama de aproximadamente 15cm seja formada;
b - faça com que a chama do maçarico seja direcionada para todos os lados do bloco de revestimento,até que,ao ser mantida em um determinado ponto por alguns segundos, essa área se torne brilhante. A chama não deve atingir, neste momento, os elementos da ponte e,muito menos, a área de soldagem, onde já se acha posicionada a liga de solda. Este aquecimento tem por finalidade desidratar completamente o bloco de revestimento e fazer o seu pré-aquecimento.
c - após o pré-aquecimento do bloco de revestimento, direcione a extremidade da zona redutora da chama(cone azul) sobre as duas partes a serem unidas entre si(pôntico e retentor), contornando a área de soldagem, até que elas adquiram uma coloração vermelho brilhante e a solda escoe para a zona de junção.Mantenha a chama sobre essa região por alguns segundos, procurando direcioná-la também para a região cervical onde foi aberta a canaleta, até que a solda adquira um brilho espelhado. A seguir retire imediatamente a chama da zona de soldagem.
d - Aguarde o resfriamento da solda por um tempo de aproximadamente cinco minutos e, a seguir,introduza o bloco de revestimento em um recipiente contendo água fria. Ou,se preferir, debaixo do jato de água de uma torneira. Não aguarde o resfriamento total da solda. Se o bloco de revestimento for deixado esfriar lentamente em temperatura ambiente, poderá ocorrer uma recristalização excessiva e crescimento de grãos, fazendo com que a conexão soldada fique enfraquecida.
Se a ponte fixa for deixada na bancada para esfriar durante cinco minutos e depois resfriada em água, a distorção será menor. Esta conduta permite um tratamento térmico organizado, que aumenta a dureza e a resistência da junção,enquanto diminui o alongamento.
e - A seguir é feita a desinclusão do bloco de revestimento, removendo quaisquer vestígios que tenham permanecido no interior dos retentores ou sobre a área de soldagem. Examine atentamente essa região. Se houver excessos de solda, elimine-os com a ajuda de um disco de carborundum. A seguir, jateie a ponte com óxido de alumínio. Ela estará,assim, pronta para receber o acabamento e ser novamente provada na boca do paciente, antes do revestimento estético das faces vestibulares.
OBSERVAÇÕES: A técnica aqui descrita, embora seja indicada para ligas de CuAl ou Au, pode ser usada para as soldagens de estruturas metálicas para próteses metalocerâmicas. Mudam apenas a fonte de calor(gás propano e oxigênio) e,evidentemente, a liga de solda.
(Dagoberto Fernandes é professor de Prótese Fixa do CTO-Centro de Treinamento em Odontologia,em Belo Horizonte)